Feliz aniversário, envelheço na cidade.
Qual a diferença que se percebe no dia seguinte do nosso aniversário? Difícil de saber, porque eu sei que nada vai mudar do dia primeiro para o dia dois. E porque pesa tanto? Às vezes fico feliz por saber que não me cobro tanto na questão de idade, mas no fundo sei que não é bem assim. É difícil olhar no espelho e ver que dos dezoito até os vinte e oito muita coisa mudou. Mas para mim o pior mesmo de envelhecer é o esquecimento das pessoas para uma data que é tão importante para nós. Talvez pelo fato de ser importante somente para mim deve ser por isso que as pessoas esquecem. No ano passado eu ainda recebi ligações de várias pessoas e olha que pelo fato de eu não morar no Brasil seria uma desculpa muito que boa. Mas o fato mais engraçado de todos, foi meu pai ter esquecido o meu aniversário no ano passado. O pior de tudo é que eu falei com ele na mesma noite (perceba, eu que liguei!) e nada, desliguei o telefone não acreditando no que tinha acontecido, ainda pensei que fosse um trote. Dez minutos, quinze minutos, vinte minutos e nada, depois de uma hora minha mãe liga, e me diz que ele realmente havia esquecido e estava pedindo desculpas. Desculpas? Como assim? Se existe uma pessoa que não deveria esquecer nunca do meu aniversário é o meu pai (porque minha mãe eu sei que nunca, nunca vai esquecer), ainda mais o meu pai. No dia primeiro de outubro de setenta e sete, minha mãe com fortes dores do parto teve que ser levada as pressas para o hospital, e naquele momento ninguém estava com ela a não ser minha avó mãe do meu pai. Pois meu pai como todo corinthiano sofredor estava no estádio vendo o timão jogar, álias super correto do meu ponto de vista, há vinte anos o corinthians não era campeão. Isso não é algo que me cria traumas ou me deixa triste. Mas imagino minha mãe com vinte dois anos de idade, morando em São Paulo, sem a sua mãe, numa cama de hospital para ter sua primeira filha e seu marido assistindo partida de futebol. Só aí ela já merece um prêmio. E com muito sacrifício e muitas dores, eu nasci. E bem na hora os fogos explodiam do lado de fora do quarto, minha mãe ainda consegue forças para perguntar para a enfermeira o que estava acontecendo, "É o corinthians que ganhou o jogo" disse a enfermeira, "É hoje que meu marido morre" disse minha mãe. Meu pai foi ao hospital sim, mas antes foi parar na emergência para receber umas doses de glicose de tão bebâdo que estava. Passaram-se os anos e hoje eu sou umas das pessoas mais apaixonadas (ou chata como dizem algumas pessoas) pelo meu time, e tudo de uma certa forma devo ao meu pai. Imagina se no ano passado eu ligasse para ele e dizesse que estava de saco cheio da campanha do meu time e resolvi mudar as minhas opções e torcer para o Palmeiras. Fica até difícil para mim pensar em dizer algo desse sentido porque tal fato nunca vai existir, mas tenho certeza que nem mesmo meu pai acreditaria, pois ele sabe o amor que tenho pelo timão. Pelo menos ficaria para sempre na memória dele como o dia que minha filha me pregou uma peça. Sendo que para mim vai ficar para sempre a idéia de que um dia ele esqueceu do meu aniversário. Sem maiores dramas, é pura verdade, nunca imaginei que isso pudesse acontecer. Isso só nos prova que pessoas erram, falham, possuem problemas, e que não é somente pelo fato de ser meu pai, que estarei livre da memória fraca dele. O que eu aprendi mesmo foi que datas são coisas que somente nós mesmo temos o direito de lembrar. E que o meu aniversário é meu exclusivamente meu, e que só cabe a mim fazer o melhor sempre. O lance é aceitar que a data vem mesmo e que o melhor a fazer é aceitar numa boa, com ou sem festa, com ou sem presentes, com meu pai lembrando ou não. E que venham os anos, happy birthday to me...

