Se as meias chorassem...
Ontem eu estava em casa assistindo televisão quando a campainha tocou, pelo horário não tinha a miníma idéia de quem poderia ser. Para minha surpresa ao abrir a porta dei de cara com uma meia que chorava sem parar. Minha primeira reação foi ficar estática, sem saber o que fazer. Desde quando meias choram? Foi naquele momento que descobri que nada sei. Tentando amenizar as lágrimas que escorriam sem parar, convidei a meia para entrar e pedi que se sentasse em uma cadeira que estava na cozinha, ofereci um copo d'água e perguntei se poderia ajudar em algo. Ela agradeceu mas negou a água pois disse ficar encharcada sempre, disse também que estava cansada porque havia andado por dias tentando achar a minha casa, ela se perdeu na última viagem que eu fiz para Key West. Naquele momento pude reconhece-la, até mesmo porque sua cor era amarela, mas devido a sujeira ela se tornava em uma cor mais escura, chegando quase em um marrom escuro, e eu particularmente prefiro as meias em tom mais pastel ou com motivos infantis. Conversavamos sobre a longa caminhada até chegar na minha casa, os momentos onde na rua dormiu sozinha, as caronas que conseguiu pelo caminho e o sonho de encontrar sua parceira e assim voltar a ser um par. Eu não sabia o que falar pois a culpa parecia ser toda minha. Ela me disse que aproveitou o momento onde não saí de tênis e foi até a janela ver o mar e ali no deslumbre da paisagem pegou no sono e dormiu, e quando acordou foi por causa do barulho do aspirador da faxineira e já era tarde demais. A faxineira ainda tentou ajudar e deixou que a meia ficasse na parte de achados e perdidos por uma semana, mas como ninguém ligou perguntando informação alguma, ela teve que escolher entre ir embora ou ir para o lixo. Mas quem deseja ir para o lixo? E assim ela optou em me procurar. Passamos horas a fio conversando e quando me dei por conta já era tarde da noite e precisava ir dormir. Arrumei um lugar na laundry onde ela pudesse passar a noite até que fosse limpa para ser colocada junto com as outras meias. Fui dormir sem enteder tudo o que havia se passado, mas antes fui olhar embaixo da cama à procurar alguma meia perdida. Agora prendo todas como um nózinho, juntas, inseparáveis. Nem mesmo as meias merecem ficar sozinhas.

