On this side of the Universe.

terça-feira, janeiro 24, 2006

E viva São Paulo!

Para falar de São Paulo é necessário falar de seu povo, de suas filas, de suas ruas, da grana que ergue e destrói coisas belas como já disse Caetano. São Paulo é muito mais que uma estrofe rimada na voz de Gil. É a casa para muitos baianos, beltranos e ciclanos um berco de miscigenação. Um grande baú de sonhos e decepções para milhões de pessoas.

Aos quatro anos de idade meus pais resolveram sair da capital e morar no interior. Minha mãe havia saído de Bauru aos 21 anos para trabalhar como promotora de vendas do açúcar União na cidade de São Paulo. E antes de conhecer meu pai e se casar ela trabalhou em um supermercado na frente da concentração do Corinthians. E assim Ze Maria e Basilio se tornaram grandes amigos. E o Corinthians seria mais uma das maiores paixões que São Paulo deixaria para sempre no coração da nossa família.

Naquela época já era uma boa decisão deixar a capital e morar no interior para se constitruir uma boa educação infantil. Na nossa mudança me lembro das lágrimas de minha avó que nunca deixou o bairro da Penha e lá reside até hoje por mais de cinqüenta anos. Minha avó ainda é um retrato de uma São Paulo saudosista. Dona Rosa como é conhecida por todos, conhece do mais velho ao mais novo morador da rua. Como de costume até hoje ela acorda as cinco da manhã, se dirige a padaria do seu Antônio, ao acougue do seu Medeiros, vai de quarta e domingo na igreja do bairro de Artur Alvin e faz questão de todos os dias levar sua cadeira a calçada para conversar com Dona Alice.

Dona Alice reside no bairro a quase cinqüenta anos. Matriarca de uma família de seis homens e duas mulheres. A casa de Dona Alice sempre foi movimentada, cheia de gente a todo tempo. Quando os filhos eram jovens a casa era cheia de amigos e amigos dos amigos. Hoje os netos fazem o mesmo papel. Mas a maior atração da casa fica para um papagaio chamado Tico. Todos os dias de manhã Tico acordava e gritava por café, e logo em seguida entoava o hino do Corinthians com perfeição.

Desde minha ida da capital para o interior, era de costume passar as ferias de verão na casa da minha avó. Dependendo do humor da minha mãe eu poderia ficar o mês inteiro. Eu contava os dias para ir viajar. O mais emocionante da viagem era o percurso do trem. Meu pai sempre levava eu e meu irmão, e antes da viagem ele sempre perguntava se queríamos ir de trem ou de ônibus. De trem demorava horas, mas desde quando criança se preocupa com o tempo? Na maioria das vezes ele nem perguntava, já comprava as passagens de trem pois sabia que éramos apaixonados pela viagem.

Me lembro com clareza que adorava sentar na janela e deixar o vento levar os cabelos. Os assentos do trem eram para seis pessoas, onde ficávamos de frente uns para os outros. A certa altura da viagem vinha o bilheteiro marcava os nossos bilhetes, e logo em seguida o carrinho que vendia as tão esperadas guloseimas. Minha escolha eram sempre a batata-frita com guaraná. De vez em quando eu dormia e acordava na estação, outras vezes ficava acordada contado as árvores que se passavam na pressa do tempo.

Uma vez em São Paulo meu pai sempre dizia; "segura a mão do seu irmão bem forte", "presta atenção para onde você anda","olhe sempre para a frente", "não converse com estranhos". E sempre como ele mandava, eu segurava a mão do meu irmão e seguíamos na loucura da multidão que saiam da estação em busca dos pontos de ônibus. Meus olhos sempre se perdiam em meio a tanto movimento, às vezes me dava uma dor de cabeça e eu não via a hora de chegar na casa da minha avó. Quando o dinheiro dava meu pai pegava um táxi e como sempre eu ficava na janela, vendo o tempo passar.

Toda vez que chegávamos na casa da minha avó era uma choradeira só. "Como você cresceu","você esta muito magrinha", "eita menino gordo". Mas tudo era muita alegria sempre. Perto da casa da minha avó tinha uma fábrica da Seven Boys, e ela sabia o quanto nos amávamos as famosas bisnaguinhas e ela fazia questão de comprar todos os dias.

Mesmo indo somente nas férias de verão para São Paulo eu tinha amigos que só via naquela época, e a rua era lotada de crianças andando de bicicleta e passando cerol em pipa. Do lado da casa tinha um terreno baldio que os meninos usavam como campinho de futebol e no final da tarde minha avó sempre deixava que nós fossemos brincar com as outras crianças.

Minha avó também nos dava uma moeda por dia para que fossemos no bar da esquina do seu Manuel e comprássemos bala. Seu Manuel é um português que ainda mora no bairro. No seu bar tinha um baleiro gigante e eu ficava a girar e girar o baleiro sem saber o que comprar. Mas no fundo era sempre a mesma bala Sete Belo com gosto de morango que eu acabava comprando. Seu Manoel ainda é dono do bar da esquina até hoje.

Nos fins de semana minha tia que trabalha no Ministério da Educação nos levava ao centro. Ir ao centro era uma aventura a parte. Saíamos de casa, pegávamos o metro e descíamos na Paulista onde meu tio trabalhava no antigo prédio da Gazeta Mercantil. Homens de terno preto andavam de um lado para o outro, pareciam ter pressa e se eu não tomasse cuidado passavam por cima de mim. Ao chegar no prédio subíamos uma escada rolante em direção ao elevador. Me lembro a primeira vez que vi uma escada rolante. Minha tia me ensinou que ao chegar no final da escada eu teria que dar um pulo ou um passo largo para chegar na calçada. Na minha cabeça eu sempre pensava o que aconteceria comigo se eu me atrapalhasse e não conseguisse pular antes. Será que eu iria ser levada para debaixo da escada rolante e sair do outro lado?

Meu tio trabalhava num escritório cheio de mesas e cheio de gente. Todo mundo chamava ele de Chan, mas eu chamava-o de tio Renato. Ele era um cara muito, muito alto e minha tia muito, muito baixinha. Nunca entendi como eles se beijavam. Devia dar dores nas costas. Do trabalho do meu tio íamos passear pela cidade. Eu amava ir até a Catedral da Sé, me admirava com a arquitetura e sonhava um dia me casar numa igreja como aquela. Adorava ver os os prédios imponentes, achava lindo o Mosteiro de São Bento, o Museu do Ipiranga, o Theatro Municipal, a Estação da Luz. Depois de andarmos um bocado sempre íamos ao Ponto Chic, um hábito que mesmo depois de "velha" fazia com o meu pai. Quando criança nunca questionei nada, mas toda vez que eu ia com meu pai brigávamos e ríamos muito, em relação ao fato do bar dizer que eles são os criadores do autêntico Bauru. Fato que eu até hoje não acredito e creio que o melhor Bauru é e sempre será o da minha cidade.

Mas uma das lembranças que eu guardo com muito carinho foi a primeira vez que eu fui a um jogo de futebol. O primeiro jogo que fui assistir no Morumbi. Eu já estava com meus 12 anos e infelizmente já havia sido criado em mim aquela arrogância adolescente. E ir para a casa da minha avó havia se tornado a última opcão da minha lista de atividades nas férias de verão. Meus amigos estavam todos em Bauru e em São Paulo as crianças que haviam crescido comigo nas férias viajavam para outros lugares. E ir para a casa da minha avó era sinônimo de ficar em casa vendo tv. E nem o baleiro do seu Manoel me encantava mais. Mas meu pai sempre dizia que quando eu ficasse mais velha me levaria para ver um jogo do Corinthians. E as férias de janeiro haviam coincidido com as férias do meu pai daí eu e ele fomos para São Paulo. Meu irmão ficou em casa de castigo pois havia ficado de recuperação.

Essa seria a primeira viagem minha e do meu pai a São Paulo sozinhos. Dessa vez fomos de ônibus. Eu tinha pressa. Eu não tinha mais paciência para as viagens de trem. Naquela época os ônibus paravam na Barra Funda e de lá seguíamos para Corinthians-Itaquera e daí para a casa da minha avó. O jogo seria no domingo. Antes de irmos para o estádio, paramos na sede da Gaviões da Fiel e meu pai me comprou uma camiseta. E no meio do caminho meu pai contava histórias, e mais uma vez São Paulo me impressionava com sua imponência gloriosa. Eu, paulistana do interior, ficava zonza ao retornar ao lar antigo. As pessoas viviam em um mundo rápido demais para uma bauruense acostumada com a calmaria do interior. E mais uma vez São Paulo me dava dor de cabeça.

Quando chegamos no estádio havia um mar alvinegro a espera da abertura dos portões. Meu pai me olhou como me olhava quando criança e me disse; "segura minha mão forte e se por um acaso a gente se perder você me espera em tal lugar, não converse com estranhos e em caso de emergência chame a policia". Como ele disse, eu segurei forte na mão dele e tudo deu certo, e não nos perdemos. Uma vez que havíamos chegado na arquibancada foi que eu tive uma noção da quantidade de pessoas que ali estavam. O jogo seria Corinthians x Bahia. Eu nunca havia visto tantas pessoas juntas em um só lugar. Mesmo sem nos conhecermos, parecia que todos nós que ali estavamos havíamos combinado em usar branco e preto e mais perfeito impossível.

O jogo estava para começar e gritos em coro em perfeita harmonia cantavam glória ao Corinthians, mas nada se compara ao momento em que o timão pisou no estádio. Em baixo dos meus pés o estádio tremia, por um momento eu pensei que havia ficado surda pois não conseguia ouvir nada apenas o grito das pessoas. Olhei ao redor e todos se encontravam na mesma harmonia. Olhei para o meu pai e ele chorava. Foi ali que descobri o valor da frase "Corinthians uma paixão". Foi ali que descobri que meu coração para sempre seria corinthiano. E eu também chorei.

O jogo segue e parece que aquele era o dia do Corinthians. Ganhamos sem sofrer. Coisa rara para quem conhece o time que torcemos. Saímos do jogo e fomos para um show que teria na quadra. Meu pai não me falou do show e me fez surpresa. Pela primeira vez eu estava indo na quadra da escola. Meu pai é um exemplo de eterno paulistano. Desde que saímos da capital para Bauru foram poucas às vezes que ele retornou a São Paulo. Mas era impressionante a maneira como ele conhecia a cidade. São Paulo para ele seria sempre a sua menina. Ele conhece aquela cidade como a palma da sua mão. Aquele dia foi um dos dia mais felizes da minha vida.

São muitas as memórias que eu tenho que envolvem São Paulo. Depois de velha retornei algumas vezes com amigos para fazer o circuito do samba. Um dos meus lugares preferidos na cidade é o Bar do Hugo no Itaim Bibi, sempre que havia tempo passávamos por lá. E tempo parece ser a palavra que mais se identifica com a cidade. Foi ali que eu aprendi o censo de progresso. Não de ordem muitas vezes, infelizmente. Mas foi ali que eu aprendi de onde sou e o que sou até hoje. Algumas vezes de madrugada em meio a garoa, andando pela Paulista retornando para a casa de alguém eu sempre pensava nas dores que essa cidade provoca. As dores de quem vive longe das cenas de cartão postal.

Inevitável não fazer uma lista do melhor de São Paulo. Entre o mar de restaurantes, cinemas, teatros, existem mil pontos a serem louvados. Mas enaltecer só o que se tem de melhor é fechar os olhos para os problemas que uma cidade do porte de São Paulo enfrenta todos os dias. Em meio ao orgulho paulista transita um sentimento de amor e ódio pelo o que a cidade acabou se tornando, um grande exemplo de coisas boas e ruins que existe por todos os lados.


Mas irei ser fiél ao espírito da paulicéia querida e hoje é dia de festa. Esquecerei por um momento as dores da cidade de concreto e irei me render as memórias de uma criança feliz que viu em São Paulo um gigante esplendoroso. As dezenas de vezes onde minha tia me levou de metro até o Terminal Rodoviário do Tietê e ali sentada na janela do ônibus dava adeus as melhores férias que uma criança do interior poderia ter, as centenas de vezes que cruzei o túnel do Anhangabaú ouvindo o barulho ensurdecedor dos carros, as vilas, cortiços e favelas, o cheiro desagradável do Rio Tietê e o descaso com um rio que nasce no interior e morre (literalmente) na capital, seus belos poetas, o corre-corre dos motoboys no meio do trânsito, seu céu sem estrelas, a loucura da Rua 25 de Março, o preço absurdo dos estacionamentos, o menino que pede "um real tio", os artistas anônimos que fazem shows diários em troca de um trocado, aos vendedores ambulantes, a Praça da Paz no Parque Ibirapuera, os bares da Rua Consolação, na poesia de Caetano. Memórias e histórias de milhões de brasileiros, que fazem de São Paulo hoje o mocinho e o bandido do nosso País. Pois como diz a música; "tú és o avesso, do avesso, do avesso, do avesso..."