Sobrevivendo no Inferno"Jorge sentou praça na cavalaria,e eu estou feliz porque eu também sou da sua companhia. Eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge, para que meus inimigos tenham pés e não me alcancem"
Rio de Janeiro,madrugada de Agosto de 1993. Homens num bar jogando baralho, crianças dormindo, trabalhadores que descansam de um longo dia de trabalho, e a família Santos que sem desconfiarem de nada seguem o ritual que todos nós fazemos diariamente; o de deitar para dormir na certeza de acordar no dia seguinte. Tudo seria perfeito se essa história não se passasse em Vigário Geral.
"Para que meus inimigos tenham mãos e não me toquem, para que meus inimigos tenham olhos e não me vejam"
Durante duas horas, na madrugada de 1993 em Vigário Geral no Rio de Janeiro, um grupo de 21 homens "encapuzados", invadem a favela distribuindo tiros a esmo. A intenção não era outra a não ser matar. Cheios de ódio e malícia, um grupo da policia militar cometeu uma das maiores chacinas já vista no país. E o motivo para tal ato desumano seria; vingar a morte de 4 policiais que haviam sido mortos dois dias antes em confronto com traficantes de drogas da mesma região.
"E nem mesmo um pensamento eles possam ter para me fazerem mal"
21 pessoas morreram incluindo, oito pessoas da mesma família, sete homens que estavam jogando cartas em uma mesa de bar, uma adolescente que estava dormindo. Nenhum traficante foi encontrado no meio da chacina. Somente pessoas que nada de errado fizeram, onde o único erro foi ter nascido pobre. E assim estão na mesma linha de discriminação que não somente a policia condena, mas toda a sociedade em que vivemos.
"Armas de fogo meu corpo não alcançarão"
Durante duas horas houve tiro aberto dentro da favela, nenhum reforço extra da policia militar foi mandado para averiguar o que estava acontecendo. Fato que prova mais uma vez que, briga de favelados não incomoda a policia. A matemática é simples; quanto mais favelado morrer menos problemas eles terão.
"Facas e espadas se quebrem sem o meu corpo tocar"
Em 1995 durante o andamento dos processos foi descoberto que a chacina de Vigário Geral não foi apenas um ato movido pela raiva e vingança, mas sim uma operação militar elaborada por 33 policiais. Onde numa noite qualquer, homens com armas nas mãos, com uniformes que servem de chave para abrir qualquer porta, se reunirão para planejar a matança e assim vingar a morte dos seus parceiros. O que importa mais um corpo estirado no chão? Mais um cidadão José.
"Cordas e correntes arrebentem sem o meu corpo amarrar"
Em 1996 os corpos das vitimas foram exumados, como milhões de brasileiros que não possuem um jazigo particular, os corpos são removidos a cada três anos para que outros corpos sejam enterrados. Nem depois de mortos existe paz. Como a justiça brasileira as pessoas morrem, são esquecidas pelo tempo e seus cadáveres jogados no lixo. Mais uma Dona Maria. Durante a retirada dos corpos foram achados cartuchos de balas, onde mostra mais uma vez que a impunidade é a dona da vez. O novo juiz que estava comandando o caso exigiu que todos os corpos fossem examinados. No total 11 cartuchos foram encontrados. Quem será a nossa voz quando os mortos não falam?
"Pois eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge"
Pela legislação atual, matar várias pessoas ao mesmo tempo eqüivale a matar uma só. Na chacina de Vigário Geral foram assassinadas 21 pessoas, mas a lei unifica essas 21 mortes e considera que os assassinos praticaram um único crime. O caso de Vigário Geral mostra apenas uma parte do problema que existe no Brasil atualmente, a impunidade que segue referente ao uso errado da autoridade que existe na polícia militar. E como justificativa a policia argumenta a necessidade de acabar com o mal que existe dentro da favela. Lavam a rua de sangue e se escondem atras de uma farda suja. A impressão que dá é que nada vai mudar. A nossa liberdade foi roubada, nossa dignidade violentada.
13 anos se passaram desde a madrugada da chacina e ainda é necessário falar da necessidade que existe em certos aspectos da investigação onde nada mudou:
- Investigação de forma séria para que todos os envolvidos sejam condenados de maneira a pagar pelos seus crimes.
- Violação dos direitos humanos, é necessário ressaltar que alguns policiais envolvidos na chacina estavam em dia de folga. Todos os dias centenas de policiais usam de violência, chantagem, tortura, aumentando o número de pessoas que condenam o sistema policial do país. Enquanto a impunidade correr solta nada irá mudar, e direitos humanos será apenas um artigo no site da Anistia Internacional.
- As famílias das pessoas que morreram na chacina ainda não receberam nenhuma ajuda do estado. É dever do estado suprir as necessidades físicas, psicológicas de todas as vitimas que tiveram seus direitos violados.
Para quem quiser ajudar, faça sua adesão no
combate a impunidade.Nome das pessoas que morreram em Vigário Geral:
Adalberto de Souza, 40, ferroviário.
Amarildo Bahiense, 31, desempregado.
Cleber Alves Marro, 24, auxiliar de escritório.
Clodoaldo Pereira, 23, atendente de mercado.
Edmilson José da Costa, 23, mecânico.
Fábio Pinheiro lau, 18, estudante.
Guaraci de Oliveira Rodrigues, 33, auxiliar de enfermagem.
Hélio de Souza Santos, 38, desempregado.
Joacir Medeiros, 60, proprietário do bar.
José dos Santos, 47, chaveiro.
Luís Cláudio Feliciano, 28, metalúrgico.
Paulo Roberto dos Santos Ferreira, 44, motorista de ônibus.
Paulo César Gomes, 35, carpinteiro.
Família Santos
Gilberto Cardoso dos Santos, 61, aposentado.
Jane da Silva Santos, 56, dona de casa.
Lúcia Silva Santos, 34, garçonete.
Lucinete Silva Santos, 27, recepcionista.
Lucinete Silva Santos, 26, metalúrgico.
Luciano Silva Santos, 24, auxiliar de escritório.
Rubia Santos, 18, auxiliar de escritório.
Luciene Santos, 15, estudante.
"Salve Jorge, salve Jorge"