Quatro da tarde. Tudo estava combinado para as três e meia. Horário pelo qual minha mãe estaria a tomar o chá da tarde com suas amigas. E meu pai como de costume, estaria na casa do Coronel Bernardo para um tarde de prosas e proesas referente ao anos dourados da ditadura militar. Coronel Bernardo era conhecido por todos na nossa pequena cidade. Homem de muitas convicções, católico fervoroso, sempre foi um dos maiores patrocinadores da festa de Nossa Senhora de Lourdes. Um dos eventos mais aguardados na nossa região. Tudo estava como eu havia planejado. Pelo menos era o que aparentava. Estava a imaginar qual o motivo para tamanho atraso. Odeio esperar. Da janela de casa eu observava as pessoas passarem. Como de costume, sábado é dia de feira. E por volta de três da tarde os feirantes guardavam suas lonas, e assim um cheiro de peixe invadia a sala, e misturado com o Chanel número cinco que eu usava me fez embrulhar o estômago. Perfume que ganhei de presente de quinze anos da tia Odete. Tia Odete é uma das pessoas mais ricas da minha família. Aos dezete anos durante uma briga com o meu avô, minha tia decidiu fugir de casa. Minha avó implorou de joelhos para que ela reconsiderasse e ficasse em casa, mas a humilhação pela qual meu avô fez minha tia passar era grande demais. De todas as sete irmãs, minha tia era a mais provida de beleza. Morena dos olhos verdes rendeu muitas dores de cabeça para o meu avô. Que Deus o tenha. Um dia como de esperado minha tia se apaixonou. Uma daquelas paixões que enlouquece a alma e cega os olhos. E quando isso acontece só vemos com os olhos do coração, e esse por sua vez não tem razão. Mas minha tia sabia que era complicado demais para que as pessoas soubessem dessa paixão principalmente meu avô. O relacionamento ficou em segredo por um tempo, sempre às escondidas. Oras pelos cantos da uma usina abandonada, ou a beira das águas do rio que ecoava na plantação de café. Mas tudo começou a ficar fora de controle e as pessoas começaram a desconfiar da filha do Senhor Bento, andando com o mulato Andrade que trabalhava na plantação de café. E era questão de dias para que essa notícia chegasse aos ouvidos do meu avô. Como realmente aconteceu. O mulato Andrade era um trabalhador rural, que havia se mudado do Nordeste para trabalhar na lavoura, e assim quem sabe um dia com o dinheiro ajuntado comprar suas próprias terras. O que Andrade não poderia imaginar era um dia se apaixonar daquela maneira. Todas as tardes depois da aula, minha tia Odete se encontrava com Andrade por algumas horas. Ali naquele momento nada importava, nem mesmo as ameaças constantes do meu avô. Ali eles faziam planos de mudarem para bem longe, constituir uma familia, e assim ser feliz. Minha tia tinha certeza que aquele era o homem da sua vida. E por isso não pensou duas vezes em se entregar por inteira para aquele que a fazia feliz. Numa tarde porém, cheio de ódio e com sentimento de vingança, meu avô resolveu segui-la. E como ele imaginava viu sua filha nas mãos daquele mulato sujo. O rio ficava uns dez minutos da fazenda do meu avô, mas ele não fez questão nenhuma de arrasta-la pelos cabelos, enquanto seus peões davam um jeito no mulato. Minha tia foi surrada por horas e depois disso ela nunca mais viu Andrade. Nem ela nem ninguém. Uns meses depois passando mal do estômago, minha tia descobriu que estava grávida. E foi naquele momento que ela resolveu fugir de casa. A única pessoa que sabia era minha avó, que aos plantos não teve como segurar a filha. Com tudo arrumado e um pouco de dinheiro guardado, minha tia no dia seguinte logo pela manhã, subiu no primeiro ônibus e foi parar no Rio de Janeiro. Cidade promissora para meninas bonitas como ela. Quem sabe uma carreira de atriz? Desde aquele dia minha tia nunca mais retornou à cidade. Somente vinte anos depois com a morte da minha avó. Nesse dia a cidade parou para ver o carro de luxo que chegou ao cemitério. E ali toda linda de preto minha tia Odete seguiu o coro das sentinelas. Eu nunca vi uma mulher tão bonita em toda minha vida. Meu avô e minha tia não trocaram olhares muito menos palavras. Depois do enterro fomos para minha casa, onde minha tia passou horas conversando com minha mãe. Pelo pouco que se sabe minha tia estava muito bem de vida. Havia se casado com um dos homens mais poderosos do Rio de Janeiro. Era esposa de um empresário. Dizem as más linguas que ele não passava de um preto sem vergonha. Sim, o marido de minha tia Odete era preto. De toda a família, minha tia foi a única que teve coragem para desafiar meu avô. E o pior castigo que ela poderia dar ao meu avô, foram os netos mulatos. Eu estava feliz com a visita da minha tia. Mesmo sendo numa data tão triste quanto à morte de minha avó. Ela me trouxe presentes. Revistas e maquiagens, que eu não poderia usar até completar meus quinze anos. Guardava tudo em uma caixinha dentro da minha cómoda. Sonhando com o dia em que deixaria a minha primeira marca de batom em um menino por ai. Quando que eu iria imaginar que o meu primeiro beijo seria não em um menino, mas sim em uma menina. Quatro horas e nada. Pelo meus planos meus pais não estariam em casa até umas cinco e meia da tarde, e assim restavam uma hora e meia apenas. Mas porque de tanta demora? Nunca imaginei que o mais difícil seria a espera. Até então o mais difícil foi tirar notas ruins de Geografia. Eu sempre fui uma aluna muito estudiosa. De toda a classe eu sempre fui a que mais se destacava. Ou pela precisão dos meus trabalhos, ou pela maneira de liderar a classe quando fosse preciso. Mas desde que Eduardo chegou na escola tudo mudou. Até então tirar notas boas não era somente fácil, mas praticamente a única coisa que me restava naquelas aulas tediosas do professor Almir. Geografia nem era tãoo ruim assim. Com certeza é bem melhor do que as aulas de religião. Infelizmente como parte da tradição da minha família católica apostólica romana, estudar em colégio de freiras era lei. E para que eu me torna-se uma esposa ideal, o mais prudente era um colégio católico, de freiras, com internato e só para mulheres. E foi ali eu passei a maior parte de minha adolescência. E fazendo coisas que até o diabo não acreditava. Tudo seguia seu caminho normal e rotineiro no colégio, até que um dia, o professor Almir teve um infarto dentro de uma sala de aula. Infelizmente não na minha. Nunca vi um corpo desfalecido estirado no chão. Não que também esteja afim de ver, mas pelo menos sairia da rotina dos livros. O professor Almir era um senhor de mais de sessenta anos de idade. Aliás se somassem a idade do quadro de funcionários de professores do meu colégio, passaria dos mil anos. Todos eram velhos demais, lentos demais, sistemáticos demais. Já não bastasse a tristeza de conviver com mulheres a todo momento, não existia nem o prazer de olhar para um professor atraente. Nem isso. No dia do infarto foi uma tremenda confusão. As freiras apertavam os terços e pediram que fizessemos uma oração a Nossa Senhora pela vida do professor. Isso foi numa quinta-feira. Na sexta já havia notícia de que o professor se encontrava bem. Mas depois desse episódio os médicos o proibiram de lecionar. E ali terminava a vida do professor Almir. E ali começava a minha. Na segunda-feira como de costume, acordamos ás cinco e meia da manhã. Eu dividia o quarto com quatro meninas. Letícia, Patrícia, Carolina e Andréia. Juntas erámos o terror dos outros dormitórios. Às vezes nós acordávamos bem cedo, e antes de irmos para a capela íamos ao banheiro. Onde fumávamos cigarro, cantávamos roque en rol e fazíamos planos de todas um dia irmos morar em Paris. Tudo no colégio era proibido. Revistas? Somente as que ensinavam crochê. Música? Deus me livre ouvir algo que não fosse somente para entoar louvores. Músicas que não tivessem essa função era coisa do belzebul. E o roque em rol nada mais era do que as meninas dos olhos de satã, feito para acabar com a mente da nossa juventude. Livros? Somente os que eram indicados pelos professores. Visitas? Somente parentes e uma vez na semana. Não nos restava muitas opções. Na maioria das vezes acabávamos dentro do banheiro e treinando french kiss uma nas outras. Foi assim que dei meu primeiro beijo. E não vejo diferença entre homem e mulher. Ainda acho que a mulher beija melhor. O cigarro nós conseguíamos com uns meninos que vinham nos muros do fundo do colégio em busca de tardes mais agradáveis. O cigarro representava a nossa atitude de rebeldia perante o sistema das freiras. E ali sem saber fumar fazíamos nossa revolução em meio a tosses e risadas. Era o que nos fazia feliz. Depois escovavamos os dentes, incorporavamos as caras mais santas e seguiamos em direção a capela para o culto matinal, que era obrigatório todos os dias. A única vez que faltei de um culto, foi quando num inverno com uma gripe terrível, com febre altíssima e calafrios, tive que ficar de cama. Mas mesmo assim com a companhia de uma auxiliadora, para ter certeza que eu não estava fingindo. As freiras eram muito espertas. Tudo que fazíamos era meticulosamente planejado para que não fossemos pegas. Na segunda-feira estávamos de volta a rotina das ave-marias e padre-nossos. Depois seguíamos para o refeitório onde tomavamos o desjejum. E dai seguíamos para as classes onde ficávamos até a uma hora da tarde. Mas naquela manhã alguma coisa acontecia no refeitório. As meninas estavam cochichando mais que o normal, e eu não sabia o que estava acontecendo. Quando recebemos a informação, de que um novo professor havia chegado ao colégio para substituir o velho professor Almir. Isso ja não era novidade. Novidade porém foi saber que o professor era novo. O alvoroço estava feito. Mas eu não estava acreditando, teria que ver com meus próprios olhos. O sino tocou era hora de ir para a classe. Naquele dia, Geografia era nossa segunda aula, ou seja teríamos uma hora pela frente de aula de Português, para descobrirmos quão novo era o novo professor de Geografia. As oito em ponto como de costume, a professora Silvana de Português entrou na sala. Página cento e quinze por favor. Figuras de estilo e linguagem. E eu estava alerta. Alerta ao tempo que demorava a passar. Eu era um total adjetivo. Ou sera um advérbio? Por estar em atitude de vigilância ao relógio? A verdade é que as palavras do quadro negro de nada me importavam. Na frente da classe havia um relógio gigantesco que causava uma pressão enorme em nossas cabeças. Acho que é de propósito. Pois os ponteiros de madeira se moviam tão lentamente, que nos causava uma sensação de estarmos pressas ao tempo, como se estivessemos pressas à aquele lugar. Em meio os meus pensamentos não havia lugar para concentração. Tentei ao máximo prestar atenção ao que a professora falava. Mas tudo aquilo, mesmo que ouvindo pela primeira vez, soava tão velho aos meus ouvidos. O novo do outro lado do corredor soava bem melhor. Tentei ao máximo não olhar para o relógio. Queria me despregar daquela imagem e deixar as horas voarem por sí mesmas. Tomarem asas e saírem daquela sala para nunca mais voltar. A não ser no dia seguinte na mesma hora com expectativas diferentes. Lentamente fui seguindo os ponteiros, percebi a grandeza de como sessenta minutos se transforma em três mil e seiscentos segundos. Cinco minutos antes de terminar a aula, a professora Marilene nos deixava fechar os livros para descansarmos um pouco, com tanto que conversássemos em tom baixo. As oito e cinqüenta e cinco, eu e mais trinta meninas trocávamos olhares de cumplicidade no meio do que poderia ser o maior evento dentro daquele colégio. Nove. O sino toca. Os corredores se tornam uma passarela de encontro de "bom dias" e "como vai você". Para o novo professor chegar a nossa classe, não levaria nada mais nada menos que cinco minutos. A classe que ele estava antes, era no mesmo corredor no sentido oposto. Ele teria que cruzar com umas seis salas diferentes, cumprimentar no mínimo sete professores e ai sim chegar a nossa sala. Nada que cinco minutos não resolvessem. Novamente estava eu escrava do relógio. As nossas portas nunca ficavam abertas. Eram sempre fechadas na entrada e saída de qualquer pessoa. Assim as freiras evitavam os olhares e brincadeiras que fazíamos com as meninas das outras classes. Nove e cinco e nada. Será que ele havia se perdido? Não seria possível. Havia um numero na porta onde dizia "sala oito". O sinal da porta era novo. Era de metal e havia substituído os que eram de madeira que se encontravam na porta, desde a fundação do colégio. Será que naquela mesma sala alguma menina contou os minutos com tanta expectativa como eu estava fazendo? Nessa hora perdida nos meus próprios pensamentos a porta se abre. Irmã Lourdes entra. Irmã Lourdes era uma das principais freiras do colégio. Era conhecida por suas formas severa de disciplinar as alunas desobedientes. Em muitas vezes ela obrigava as meninas a ficarem horas de joelho orando. Para assim criar calos, o que ela dizia ser uma forma de submissão ao Senhor e reconhecimento do erro. Tínhamos que sofrer para receber o perdão divino. Irmã Lourdes nos explica que o professor Almir não estaria mais trabalhando, e devido a isso um novo professor havia sido providenciado. Por enquanto ele seria um professor substituto, e se durante o final do trimestre tudo desse certo, o novo professor poderia fazer parte do quadro de funcionários do nosso querido e agradável colégio. Antes que irmã Lourdes concluísse seus pensamentos as portas se abrem novamente, e naquele momento eu nunca havia realmente sentido minhas pernas. Até então minhas pernas haviam sido feitas para andar somente. Para me levantar da cama e me levar de um canto a outro. Naquele dia eu descobri que minhas pernas, além de andarem elas tremiam. E junto com o tremor das pernas, um calor incontrolável me subiu a espinha, acompanhado de uma transpiração nas minhas mãos. Tudo isso ao mesmo tempo e em menos de um minuto. Naquele momento eu não conseguia fazer um auto-diagnóstico do que estava acontecendo. As aulas de ciência para nada me serviram. Eu não sabia o que estava acontecendo. Mas um sentimento de alegria me tomou a alma como nunca antes, e meu coração estava muito feliz. "Queridas alunas", disse irmã Lourdes "esse é Eduardo, seu novo professor de Geografia". Como assim professor de Geografia? Aquele homem poderia ser era qualquer coisa menos o meu professor de Geografia. Até então a imagem que tínhamos dos homens era grotesca demais para que um homem lindo como aquele fosse o nosso professor de Geografia. Claro que nós sabíamos que existiam homens bonitos. Mas não no nosso colégio. Muito menos na nossa cidade. Homens como o professor Eduardo eram imagens restrita as revistas, não a nossa pequena sala de aula. Nossas orações haviam sido respondidas. Os calos valiam a pena. E Deus estava mais vivo que nunca.
(...)