On this side of the Universe.

sábado, dezembro 31, 2005

Apocalipse

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Feliz Ano Novo!

O preco da maçã.

Desde o seu início na Europa, o Capitalismo com seu absolutismo e com o controle do Estado em nada mudou para a atual realidade econômica em que vivemos. Ou seja a definição de preços é feita pelo mercado, com base na oferta e na procura, isto é, na disputa de interesses entre quem quer comprar e quem quer vender produtos e serviços. No capitalismo, é o mercado que orienta a econômia. Quanto mais interesse existe em um produto, maior o interesse do Estado. O que mudaria esse quadro seria a livre concorrência. A concorrência é a competição na venda dos bens e serviços. Na prática seria onde todos são igualmente livres para produzir, comprar, vender, mas isso não existe. Não existe porque o mercado vem sendo dominado por grandes organizações, que expandem cada vez mais sua área de atuação eliminando pequenos e médios concorrentes. Querem um exemplo? O Ipod. Desde o seu lançamento, não existe nada no mercado hoje, que consuma tanto a cabeça de jovens, velhos e crianças. Todo mundo quer um pedaço da maçã. O meu primeiro Ipod (digo primeiro porque o mesmo foi retornado a Apple várias vezes), eu comprei a cerca de dois anos a trás. Antes mesmo do furor e da febre que existe hoje. Funcionava bem, deu um problema de freezing, mandei para a fábrica me mandaram um novo. Milagres da garantia de um ano. Mas a garantia acabou, eu nem pensei em renovar.(tudo por um razoável preco de sessenta dólares). Comprei um novo pc, novamente um pedaço da maçã. Fui reinstalar meu Ipod. Congelou. E não voltou mais. Eu ainda tinha esperanças que ele estivesse se reajustando a idéia de largar Bill Gates e retornar ao lar. Mas ele não quis saber. Hoje fui na Apple Store aka Geek Store. E levei meu Ipod adoentado para o especialista. Lá, um garoto, de óculos (marca registrada da Geek Store), e sotaque indiano fez de tudo para reánima-lo. Tentou tudo o que eu já havia tentado casa (isso me faz meia-Geek). E nada. Ele me disse que havia feito de tudo mas era impossível trazê-lo de volta a vida. Ele não poderia mais cantar para mim. E ali ele se foi com mais de três mil títulos e mais de dois anos de trabalho árduo de contrabando de música. Perguntei o que poderia ser feito e ele me disse que o hard-drive não estava bom. Hard-Drive no caso do Ipod seria o coração. Ele precisaria de um transplante. Quando ele me disso isso já imaginei que não sairia barato. Você já viu transplante de coração por menos de cem dólares? Nem eu. Dito e feito. Para reimplantar um novo coração; cento e sessenta dólares, despesas de correio; mais uns trinta. Ver a dona do Ipod pulando de alegria quando ele voltar novinho? Não tem preço. Tem preço sim! Para mandar arrumar meu velho Ipod ficaria na base de uns duzentos dólares. Um novo está duzentos e noventa e nove. Ok. O que eu faria com o velho se quisesse comprar um novo? Existe um programa chamado Recicling Ipod. Não pense vocês que é uma coaligação com o Greenpeace e toda venda dos Ipod's remanufaturados serão para organizações com base de ajuda no desmatamento da Amazônia. Ou muito menos uma campanha do Bono de levar Ipods para crianças na África. Não, nada disso. Eh somente uma maneira de "ajudar" o beneficiado (no caso eu), a comprar um novo com descontos. Nossa que fantástico! Quero um novo já! Mas quantos porcentos eu tenho de desconto, já que eu tenho um Ipod que quebrou por falha no sistema inútil que vocês criarão? Dez porcento. Eu fiquei pasma. Quase cai. Expliquei para o Geek do caixa que não fazia sentido eu ter um aparelho onde paguei cem porcento do preço e ter somente um valor de dez por cento perante a compra da mesma mercadoria. O menino até ficou simpatizante da minha situação. Mas o caso dele é bem explicado pelo Capitalismo; quem não é dono dos meios de produção é obrigado a trabalhar em troca de um salário. De nada adianta reclamar para uma pessoa que tem os mesmo problemas que o meu. Resultado? Estou terminando de instalar meu novo Ipod. Um Ipod metido de cara comprida, light; muito mais fino, sabe cantar, ver filme e foto. Olhando para ele senti saudade do outro que fazia a mesmo coisa, mas não resistiu a maratona tecnológica em que vivemos. Eu não sei por quanto tempo esse irá dura. Mas para garantir vou fazer um investimento de estender minha garantia por dois anos. O que me garante UTI se for preciso. Vivendo que se aprende. No fundo a maçã mais cara que já comprei.

quinta-feira, dezembro 29, 2005

Fechando para balanço.

Faltam menos de 100 horas para 2005 virar par. "Talvez por ter sido um ano impar tanta urucubaca aconteceu", possa dizer uma númerologa entendida no assunto. Eu, como não entendo bulufas de números e seus poderes com o astral, acredito que as nossas decisões sim, interferem no nosso futuro. 2005 está acabando e vai ficar na história como o ano das catástrofes naturais, o ano do mensalão, o ano em que Michael the Jacko dormiu com crianças e a justiça mesmo americana continua cega, o ano em que o Brasil disse não ao sim e sim ao não, o ano em que Saddam caiu no buraco (literalmente), o ano em que eu vivi meus momentos de refugiada devido ao furacão Wilma, o ano que mais entrou brasileiros nos Estados Unidos pela fronteira do México, o ano em que eu fiquei feliz por não estar no Brasil e ter que ficar ouvindo a música do Latino a todo momento (Obrigado meu Deus...), o ano em que o presidente Bush provou ser uma cópia do pai (e isso não é nenhum elogio), o ano em que o Corinthians foi campeão brasileiro (mas até ai nada de novo), o ano em que o hip-hop chegou no topo do mundo e ficou...E é aqui que eu começo a fazer a minha lista:

- Where it's Going Hip-Hop Now

Para os que gostam e sabem, hip-hop chega aos trinta anos desde o dia em que das ruas do Bronx invadiu o mundo. Para muitos motivo de orgulho, para outros nada de mais. Hoje hip-hop está na moda. Nos comerciais de tv, nas capas de revistas, no programa Larry King, criando discussões com O'Halley, e rendendo milhões ao bolso dos mais talentosos. Com a popularidade do gênero, cresce o sonho de jovens rappers chegar ao topo do mundo e ser reconhecido como King of the Mic. Ilude-se quem pensa que é facil. Competir com Jay-Z, Nas, Snoop Dogg, Young Jeezy, Kanye West, Missy Elliot, André 3000, 50 Cent, Mos-Def, Common, N.E.R.D vai alem de ter talento, você tem que ser único. O problema nem é lancar um cd, isso é até fácil. O problema é manter o sucesso do primeiro cd. E se isso não acontece existe a lista de rappers que estão perdidos na billboard há dois anos atrás. E acreditem ninguém quer estar ali. Ja Rule que o diga. A verdade é que hip-hop esta num nível nunca antes imaginado. Saiu da imagem de som marginalizado, para festas na casa de Oprah Winfrey. Muito se fala sobre a maneira de como a imagem da mulher e o dinheiro são usados nas letras e vídeos de vários artistas. Coisa ruim existe em todos os gêneros. Impossível colocar um único estilo de música no topo e classificá-lo como impecável, livre de estereótipos. Com o hip-hop igual ou até mesmo pior. Sex sells. E para as gravadoras não importa se você esta falando da dificuldade de viver nas favelas ou de quantas mulheres você transa por dia. O que importa são números. Para a gravadora o artista não passa de um número. Até o dia que ele tiver dinheiro o suficiente para comprar seu passo livre. E ainda dizem que a escravidão acabou. Isso nada mais é do quem um reflexo daquela época, mas revestida em ouro, diamante e rodas de carro que custam mais que um apartamento na praia. Se o artista não é um Jay-Z que hoje possui autonomia para fazer o que bem entender, vai ter que falar de sexo, bundas e carros para que continue com um contrato que pague as contas. E acreditem esse não é o hip-hop que eu amo e defendo. Muito pelo contrário. Mas acho que existe espaço para todos. Basta a cada um de nós escolhermos o que há de melhor. Então aqui está uma lista de cd's que eu acho que valem a pena. Não que interessa a alguém. Mas somente para ficar claro que, hip-hop é muito mais que música de preto, de pobre. Mas porque é a maneira mais original que o preto, pobre, menos privilegiado descobriu de falar o que quer e ainda ser pago para isso.

1-The Michelangelo of Flow: Jay-Z
Reasonable Doubt (1996)
The Blueprint (2001)
The Black Album (2003)
2-The Guy who disses Jay: Nasir Jones
God's Son (2003)
Street Disciple's (2004)
3-The Love Below: Outkast
Stankonia (2000)
Speakerboxxx (2003)
4-The Queen of the Beat: Missy Misdeamenor Elliot
Under Construction (2002)
5-It Takes a Woman to Put Love in the Game: Laurin Hill
The Miseducation of Laurin Hill (1998)
6-Drop it Like its Hot: Snoop Dogg
Doggystyle (1993)
Paid tha Cost to be da Boss (2002)
7-The Next Biggest Thing: Kanye West
College Dropout (2004)
Late Registration (2005)
8-The Messiah of Rap: Tupak Shakur
Rap Phenomenon II (2003)
9-My First Contact with the Mic: Public Enemy
Apocalipse 91 (1994)
10-The Southernmost to have: Ludacris
Chicken N Beer (2003)

Pensamentos

tuas unhas roídas
são meu castelo em ruínas



.por rodrigo.
o poeta do Extra Oficiais

terça-feira, dezembro 27, 2005

Enquanto ele nao chega - Parte I

Quatro da tarde. Tudo estava combinado para as três e meia. Horário pelo qual minha mãe estaria a tomar o chá da tarde com suas amigas. E meu pai como de costume, estaria na casa do Coronel Bernardo para um tarde de prosas e proesas referente ao anos dourados da ditadura militar. Coronel Bernardo era conhecido por todos na nossa pequena cidade. Homem de muitas convicções, católico fervoroso, sempre foi um dos maiores patrocinadores da festa de Nossa Senhora de Lourdes. Um dos eventos mais aguardados na nossa região. Tudo estava como eu havia planejado. Pelo menos era o que aparentava. Estava a imaginar qual o motivo para tamanho atraso. Odeio esperar. Da janela de casa eu observava as pessoas passarem. Como de costume, sábado é dia de feira. E por volta de três da tarde os feirantes guardavam suas lonas, e assim um cheiro de peixe invadia a sala, e misturado com o Chanel número cinco que eu usava me fez embrulhar o estômago. Perfume que ganhei de presente de quinze anos da tia Odete. Tia Odete é uma das pessoas mais ricas da minha família. Aos dezete anos durante uma briga com o meu avô, minha tia decidiu fugir de casa. Minha avó implorou de joelhos para que ela reconsiderasse e ficasse em casa, mas a humilhação pela qual meu avô fez minha tia passar era grande demais. De todas as sete irmãs, minha tia era a mais provida de beleza. Morena dos olhos verdes rendeu muitas dores de cabeça para o meu avô. Que Deus o tenha. Um dia como de esperado minha tia se apaixonou. Uma daquelas paixões que enlouquece a alma e cega os olhos. E quando isso acontece só vemos com os olhos do coração, e esse por sua vez não tem razão. Mas minha tia sabia que era complicado demais para que as pessoas soubessem dessa paixão principalmente meu avô. O relacionamento ficou em segredo por um tempo, sempre às escondidas. Oras pelos cantos da uma usina abandonada, ou a beira das águas do rio que ecoava na plantação de café. Mas tudo começou a ficar fora de controle e as pessoas começaram a desconfiar da filha do Senhor Bento, andando com o mulato Andrade que trabalhava na plantação de café. E era questão de dias para que essa notícia chegasse aos ouvidos do meu avô. Como realmente aconteceu. O mulato Andrade era um trabalhador rural, que havia se mudado do Nordeste para trabalhar na lavoura, e assim quem sabe um dia com o dinheiro ajuntado comprar suas próprias terras. O que Andrade não poderia imaginar era um dia se apaixonar daquela maneira. Todas as tardes depois da aula, minha tia Odete se encontrava com Andrade por algumas horas. Ali naquele momento nada importava, nem mesmo as ameaças constantes do meu avô. Ali eles faziam planos de mudarem para bem longe, constituir uma familia, e assim ser feliz. Minha tia tinha certeza que aquele era o homem da sua vida. E por isso não pensou duas vezes em se entregar por inteira para aquele que a fazia feliz. Numa tarde porém, cheio de ódio e com sentimento de vingança, meu avô resolveu segui-la. E como ele imaginava viu sua filha nas mãos daquele mulato sujo. O rio ficava uns dez minutos da fazenda do meu avô, mas ele não fez questão nenhuma de arrasta-la pelos cabelos, enquanto seus peões davam um jeito no mulato. Minha tia foi surrada por horas e depois disso ela nunca mais viu Andrade. Nem ela nem ninguém. Uns meses depois passando mal do estômago, minha tia descobriu que estava grávida. E foi naquele momento que ela resolveu fugir de casa. A única pessoa que sabia era minha avó, que aos plantos não teve como segurar a filha. Com tudo arrumado e um pouco de dinheiro guardado, minha tia no dia seguinte logo pela manhã, subiu no primeiro ônibus e foi parar no Rio de Janeiro. Cidade promissora para meninas bonitas como ela. Quem sabe uma carreira de atriz? Desde aquele dia minha tia nunca mais retornou à cidade. Somente vinte anos depois com a morte da minha avó. Nesse dia a cidade parou para ver o carro de luxo que chegou ao cemitério. E ali toda linda de preto minha tia Odete seguiu o coro das sentinelas. Eu nunca vi uma mulher tão bonita em toda minha vida. Meu avô e minha tia não trocaram olhares muito menos palavras. Depois do enterro fomos para minha casa, onde minha tia passou horas conversando com minha mãe. Pelo pouco que se sabe minha tia estava muito bem de vida. Havia se casado com um dos homens mais poderosos do Rio de Janeiro. Era esposa de um empresário. Dizem as más linguas que ele não passava de um preto sem vergonha. Sim, o marido de minha tia Odete era preto. De toda a família, minha tia foi a única que teve coragem para desafiar meu avô. E o pior castigo que ela poderia dar ao meu avô, foram os netos mulatos. Eu estava feliz com a visita da minha tia. Mesmo sendo numa data tão triste quanto à morte de minha avó. Ela me trouxe presentes. Revistas e maquiagens, que eu não poderia usar até completar meus quinze anos. Guardava tudo em uma caixinha dentro da minha cómoda. Sonhando com o dia em que deixaria a minha primeira marca de batom em um menino por ai. Quando que eu iria imaginar que o meu primeiro beijo seria não em um menino, mas sim em uma menina. Quatro horas e nada. Pelo meus planos meus pais não estariam em casa até umas cinco e meia da tarde, e assim restavam uma hora e meia apenas. Mas porque de tanta demora? Nunca imaginei que o mais difícil seria a espera. Até então o mais difícil foi tirar notas ruins de Geografia. Eu sempre fui uma aluna muito estudiosa. De toda a classe eu sempre fui a que mais se destacava. Ou pela precisão dos meus trabalhos, ou pela maneira de liderar a classe quando fosse preciso. Mas desde que Eduardo chegou na escola tudo mudou. Até então tirar notas boas não era somente fácil, mas praticamente a única coisa que me restava naquelas aulas tediosas do professor Almir. Geografia nem era tãoo ruim assim. Com certeza é bem melhor do que as aulas de religião. Infelizmente como parte da tradição da minha família católica apostólica romana, estudar em colégio de freiras era lei. E para que eu me torna-se uma esposa ideal, o mais prudente era um colégio católico, de freiras, com internato e só para mulheres. E foi ali eu passei a maior parte de minha adolescência. E fazendo coisas que até o diabo não acreditava. Tudo seguia seu caminho normal e rotineiro no colégio, até que um dia, o professor Almir teve um infarto dentro de uma sala de aula. Infelizmente não na minha. Nunca vi um corpo desfalecido estirado no chão. Não que também esteja afim de ver, mas pelo menos sairia da rotina dos livros. O professor Almir era um senhor de mais de sessenta anos de idade. Aliás se somassem a idade do quadro de funcionários de professores do meu colégio, passaria dos mil anos. Todos eram velhos demais, lentos demais, sistemáticos demais. Já não bastasse a tristeza de conviver com mulheres a todo momento, não existia nem o prazer de olhar para um professor atraente. Nem isso. No dia do infarto foi uma tremenda confusão. As freiras apertavam os terços e pediram que fizessemos uma oração a Nossa Senhora pela vida do professor. Isso foi numa quinta-feira. Na sexta já havia notícia de que o professor se encontrava bem. Mas depois desse episódio os médicos o proibiram de lecionar. E ali terminava a vida do professor Almir. E ali começava a minha. Na segunda-feira como de costume, acordamos ás cinco e meia da manhã. Eu dividia o quarto com quatro meninas. Letícia, Patrícia, Carolina e Andréia. Juntas erámos o terror dos outros dormitórios. Às vezes nós acordávamos bem cedo, e antes de irmos para a capela íamos ao banheiro. Onde fumávamos cigarro, cantávamos roque en rol e fazíamos planos de todas um dia irmos morar em Paris. Tudo no colégio era proibido. Revistas? Somente as que ensinavam crochê. Música? Deus me livre ouvir algo que não fosse somente para entoar louvores. Músicas que não tivessem essa função era coisa do belzebul. E o roque em rol nada mais era do que as meninas dos olhos de satã, feito para acabar com a mente da nossa juventude. Livros? Somente os que eram indicados pelos professores. Visitas? Somente parentes e uma vez na semana. Não nos restava muitas opções. Na maioria das vezes acabávamos dentro do banheiro e treinando french kiss uma nas outras. Foi assim que dei meu primeiro beijo. E não vejo diferença entre homem e mulher. Ainda acho que a mulher beija melhor. O cigarro nós conseguíamos com uns meninos que vinham nos muros do fundo do colégio em busca de tardes mais agradáveis. O cigarro representava a nossa atitude de rebeldia perante o sistema das freiras. E ali sem saber fumar fazíamos nossa revolução em meio a tosses e risadas. Era o que nos fazia feliz. Depois escovavamos os dentes, incorporavamos as caras mais santas e seguiamos em direção a capela para o culto matinal, que era obrigatório todos os dias. A única vez que faltei de um culto, foi quando num inverno com uma gripe terrível, com febre altíssima e calafrios, tive que ficar de cama. Mas mesmo assim com a companhia de uma auxiliadora, para ter certeza que eu não estava fingindo. As freiras eram muito espertas. Tudo que fazíamos era meticulosamente planejado para que não fossemos pegas. Na segunda-feira estávamos de volta a rotina das ave-marias e padre-nossos. Depois seguíamos para o refeitório onde tomavamos o desjejum. E dai seguíamos para as classes onde ficávamos até a uma hora da tarde. Mas naquela manhã alguma coisa acontecia no refeitório. As meninas estavam cochichando mais que o normal, e eu não sabia o que estava acontecendo. Quando recebemos a informação, de que um novo professor havia chegado ao colégio para substituir o velho professor Almir. Isso ja não era novidade. Novidade porém foi saber que o professor era novo. O alvoroço estava feito. Mas eu não estava acreditando, teria que ver com meus próprios olhos. O sino tocou era hora de ir para a classe. Naquele dia, Geografia era nossa segunda aula, ou seja teríamos uma hora pela frente de aula de Português, para descobrirmos quão novo era o novo professor de Geografia. As oito em ponto como de costume, a professora Silvana de Português entrou na sala. Página cento e quinze por favor. Figuras de estilo e linguagem. E eu estava alerta. Alerta ao tempo que demorava a passar. Eu era um total adjetivo. Ou sera um advérbio? Por estar em atitude de vigilância ao relógio? A verdade é que as palavras do quadro negro de nada me importavam. Na frente da classe havia um relógio gigantesco que causava uma pressão enorme em nossas cabeças. Acho que é de propósito. Pois os ponteiros de madeira se moviam tão lentamente, que nos causava uma sensação de estarmos pressas ao tempo, como se estivessemos pressas à aquele lugar. Em meio os meus pensamentos não havia lugar para concentração. Tentei ao máximo prestar atenção ao que a professora falava. Mas tudo aquilo, mesmo que ouvindo pela primeira vez, soava tão velho aos meus ouvidos. O novo do outro lado do corredor soava bem melhor. Tentei ao máximo não olhar para o relógio. Queria me despregar daquela imagem e deixar as horas voarem por sí mesmas. Tomarem asas e saírem daquela sala para nunca mais voltar. A não ser no dia seguinte na mesma hora com expectativas diferentes. Lentamente fui seguindo os ponteiros, percebi a grandeza de como sessenta minutos se transforma em três mil e seiscentos segundos. Cinco minutos antes de terminar a aula, a professora Marilene nos deixava fechar os livros para descansarmos um pouco, com tanto que conversássemos em tom baixo. As oito e cinqüenta e cinco, eu e mais trinta meninas trocávamos olhares de cumplicidade no meio do que poderia ser o maior evento dentro daquele colégio. Nove. O sino toca. Os corredores se tornam uma passarela de encontro de "bom dias" e "como vai você". Para o novo professor chegar a nossa classe, não levaria nada mais nada menos que cinco minutos. A classe que ele estava antes, era no mesmo corredor no sentido oposto. Ele teria que cruzar com umas seis salas diferentes, cumprimentar no mínimo sete professores e ai sim chegar a nossa sala. Nada que cinco minutos não resolvessem. Novamente estava eu escrava do relógio. As nossas portas nunca ficavam abertas. Eram sempre fechadas na entrada e saída de qualquer pessoa. Assim as freiras evitavam os olhares e brincadeiras que fazíamos com as meninas das outras classes. Nove e cinco e nada. Será que ele havia se perdido? Não seria possível. Havia um numero na porta onde dizia "sala oito". O sinal da porta era novo. Era de metal e havia substituído os que eram de madeira que se encontravam na porta, desde a fundação do colégio. Será que naquela mesma sala alguma menina contou os minutos com tanta expectativa como eu estava fazendo? Nessa hora perdida nos meus próprios pensamentos a porta se abre. Irmã Lourdes entra. Irmã Lourdes era uma das principais freiras do colégio. Era conhecida por suas formas severa de disciplinar as alunas desobedientes. Em muitas vezes ela obrigava as meninas a ficarem horas de joelho orando. Para assim criar calos, o que ela dizia ser uma forma de submissão ao Senhor e reconhecimento do erro. Tínhamos que sofrer para receber o perdão divino. Irmã Lourdes nos explica que o professor Almir não estaria mais trabalhando, e devido a isso um novo professor havia sido providenciado. Por enquanto ele seria um professor substituto, e se durante o final do trimestre tudo desse certo, o novo professor poderia fazer parte do quadro de funcionários do nosso querido e agradável colégio. Antes que irmã Lourdes concluísse seus pensamentos as portas se abrem novamente, e naquele momento eu nunca havia realmente sentido minhas pernas. Até então minhas pernas haviam sido feitas para andar somente. Para me levantar da cama e me levar de um canto a outro. Naquele dia eu descobri que minhas pernas, além de andarem elas tremiam. E junto com o tremor das pernas, um calor incontrolável me subiu a espinha, acompanhado de uma transpiração nas minhas mãos. Tudo isso ao mesmo tempo e em menos de um minuto. Naquele momento eu não conseguia fazer um auto-diagnóstico do que estava acontecendo. As aulas de ciência para nada me serviram. Eu não sabia o que estava acontecendo. Mas um sentimento de alegria me tomou a alma como nunca antes, e meu coração estava muito feliz. "Queridas alunas", disse irmã Lourdes "esse é Eduardo, seu novo professor de Geografia". Como assim professor de Geografia? Aquele homem poderia ser era qualquer coisa menos o meu professor de Geografia. Até então a imagem que tínhamos dos homens era grotesca demais para que um homem lindo como aquele fosse o nosso professor de Geografia. Claro que nós sabíamos que existiam homens bonitos. Mas não no nosso colégio. Muito menos na nossa cidade. Homens como o professor Eduardo eram imagens restrita as revistas, não a nossa pequena sala de aula. Nossas orações haviam sido respondidas. Os calos valiam a pena. E Deus estava mais vivo que nunca.

(...)

Charque com batata-frita.

Todo mundo sabe o quanto nos brasileiros somos paga-paus de toda cultura "made outside of Brazil". Aos poucos as coisas estao mudando e existe um sentimento de nacionalidade cada vez maior. Tudo bem que esse mesmo sentimentalismo cresce conforme o otimismo que temos referente ao crescimento da economia e de uma certa estabilidade quen possa existir. Escandalos de mensalao e corrupcao a parte, o Brasil esta na moda. E os americanos descobriram isso antes da gente. Para variar. Acaba-se de inaugurar em Sao Paulo (claro, a cidade mais cosmo do Pais) no shopping do Ibirapuera a primeira unidade, das muitas que irao abrir no Brasil da rede Burger King. O maior concorrente do Mc Donald's. Ronald nao deve estar rindo a toa. Muito pelo contrario deve estar irritado com a chegada do Whopper para eliminar o gosto ao Big Mac. Briga de gigantes no mundo da gordura saturada. Para mim particularmente nao existe guerra, como toda seguidora da geracao coca-cola, como os dois. Mas nao deixo de dizer que minha preferencia nao eh a marca de arcos dourados. Mas isso nao esta em questao. O mais interessante de tudo isso eh, paulistanos formaram filas para comer pao com hamburger, alface, tomate e cebola. E pasmem-se sem molho especial! Mas nao pensem voces que essa cultura de adoracao ao maior simbolo do Tio Sam esta restrito somente a nos latinos. Na Russia foi aberto um Mc Donalds ha quase dezoito anos atras e pessoas dormiram na fila. Como a maioria de nos fazemos, mas geralmente para conseguir um numero para uma consulta medica ou para fazer a matricula dos nossos filhos numa escola mais perto de casa. Sim...As prioridades na vida dos sere humanos. O Burger King chegou para arrazar, e somente no Nordeste ira abrir sete lojas. Sete lojas. Numa area do Pais onde centenas de familias vivem com um salario minimo para sustentar doze. Onde um "combo" nao ira sair por menos de oito reais. Fico a imaginar, qual sera o cardapio do Burger-King nordestino? Na Bahia quente ou frio, depende do gosto do cliente. Em Recife com chance de escolher entre batata-frita ou casquinha de siri. E no Ceara carne-de-sol ao inves de carne de vaca. Ahhh nao. Me esqueci isso nao podera acontecer. Toda carne sera importada dos Estados Unidos e da Argentina. Ou seja usar carne dos maiores exportadores do mundo nao pode, mas entupir nossas veias com carne hermana eh negociavel. Aiai depois nos brasileiros somos cheios de moda.

segunda-feira, dezembro 26, 2005

Meu coracao esta com pressa.

O Natal foi ontem. Uma das raras excessoes onde praticamente o comercio nao funciona nesse Pais. Coisa rara num lugar onde o consumismo eh regra de sobrevivencia para os nativos, conformados e recem-chegados. Aqui nos Estados Unidos gastar eh fundamental. Americanos, fulanos, ciclanos todos juntos formam um circulo sem fim de dividas e mais dividas com as compras de fim de ano. Mas mesmo com a maquina consumista que move os Estados Unidos na epoca do Natal, existe tambem um sentimento de ajuda muito grande. O fim do ano chega para todos com aquele peso do "o que foi que eu fiz da minha vida esse ano". E dai um cara senta e faz um retrospectiva dos melhores e piores momentos do ano que esta se encerrando. E creio eu que devido a tantas desgracas que aconteceram esse ano, o sentimento de ajuda aumentou entre as pessoas. Vi na tv que o brasileiro possui um espirito de compaixao tremendo e com isso sempre sente a necessidade de ajudar. O que dizer de um povo que passa por tantos problemas como o nosso, mas mesmo assim no meio de tantas desilusoes sejam elas politicas ou sociais, ainda existe pessoas com consciencia sobre cidadania e entendem a necessidade que existe em nos ajudarmos. Acredito eu nao ser somente um caso exclusivo de deveres como cidadaos, mas sim sentimentos que exercemos por compaixao, amor ao proximo. Coisa que nao se aprende em programas eleitorais infelizmente e sim no convivio diario com os problemas que estao dentro e fora de casa. Dai infelizmente nao tem como nao fazer tolas comparacoes. Os Estados Unidos esse ano levantou uma quantidade bilionaria de doacoes ao fundo de ajuda do Furacao Katrina. Mas por outro lado, a ajuda com que o governo americano se dispoe a oferecer para ajudar com a erradicacao da fome na Africa, nao chega a um terco do que foi gasto na guerra do Iraque. Gasta-se mais para matar do que para salvar. Ajuda mais quem pode mais. Isso eh fato. A questao eh completamente ligada ao sistema economico do pais, e os Estados Unidos quando o assunto eh filantropia estao a passos largos e merecem medalha de outro. Mas quando o assunto eh calor humano, o Brasil eh tetra. Existem varias historias de pessoas que nao se conformam com a pobreza e a miseria que muito dos milhoes de brasileiros vivem, e no meio de toda dessa indignacao nasce um sentimento de compaixao e ajuda, e assim o Natal de muitos eh mais feliz. Nao porque vai tem arvore de Natal, presentes e um Papai Noel que desce pela chamine. Mas sim porque um prato de arroz e feijao substitui as lagrimas de uma mae, que fica feliz ao saber que o filho pequeno tem o que comer. O que eh um presente de Natal quando milhoes de pessoas nem tem o que se comer. Penso nas criancas do meu Pais que sonham com uma simples boneca, uma bola, uma camisa de futebol. Os correios da cidade de Sao Paulo esse ano recebeu mais de dezenove mil cartas para o Papai Noel. Felizmente, todas as cartas ao bom velhinho sao guardadas. Eu nao sei se todas sao abertas. Mas sao dezenove mil criancas na capital de Sao Paulo que pedem atencao. Dezenove mil criancas que acreditam na ideia de um homem de roupa vermelha, que anda de treno e distribui presente para a criancada. E de graca. Que mal ha em acreditar numa pessoa tao doce e carismatica como o Papai Noel? Nenhum. O unico problema eh, dezenove mil cartas, com dezenove mil pedidos. Num pais onde possivelmente dezonove mil criancas vivem em miseria extrema e realmente esperam o presente do Papai Noel. Nao porque eh bonitinho. Mas porque nao existe outra opcao. Dezenove mil criancas que talvez nao receberam nada de Natal porque infelizmente Papai Noel nao existe. E que maneira mais cruel de receber essa informacao. E no dia vinte e cinco, depois de esperar e esperar, essas dezenove mil criancas dirigem-se aos seus pais e perguntam; onde esta meu presente que Papai Noel ainda nao trouxe? Imagino a carinha dessas dezenove mil criancas ao receber um tapa como resposta, de um pai alcoolatra ou de uma mae que chora por nao ter o que comer. Eh ai que o mundo real doi. Quando os problemas reais tiram o direito de sonhar. Quem me dera ter a chance de ler essas dezenove mil cartas e assim contribuir com a natural habilidade do faz de conta que eh tao necessario no desenvolvimento e crescimento de toda crianca. Pois se de maneira tao bruta eh tirado essa forma de pensar, como fazer essas dezenove mil criancas acreditarem num futuro melhor? Quando nem mesmo uma boneca de plastico aparece na porta de casa. Como resolver o problema de um pais que precisa muito mais do que barbies e kens para um futuro melhor? Sao dezenove mil criancas na capital de Sao Paulo, que irao crescer com a possibilidade de criarem um sentimento de desilusao que ira afetar a todos nos. O que me da esperancas eh que podemos sempre comecar de novo. Mesmo onde tudo eh dor. E enquanto doi, eh sinal que ainda sentimos e que algo pode mudar. Mesmo que tenhamos que parar, sentar e resolver dezenove mil problemas. Um de cada vez. Pois quando num mundo onde nem Papai Noel existe, tudo eh vaidade.