On this side of the Universe.

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Na terra do futebol, Malcom X é tema de samba enredo.

Todo mês de Fevereiro americanos comemoram o Black Month History. Essa data nasceu em 1926 por um filho de escravos que lutou a sua vida inteira para que a história negra fosse para sempre documentada. Pois somente lembrando dos erros seremos capazes de fazer um futuro melhor. No Brasil o mês de Fevereiro tem mais brilho. E isso nem sempre é bom.

Eu, brasileira, meia-espanhola, meia-negra, luto para que o racismo e o preconceito sejam eliminados de vez. Não somente das páginas de um livro de história que está para ser feito, mas também da falsa idéia de que nós, brasileiros, não somos racistas. Muito pelo contrário. O nosso racismo mata, fere. E está estampado a cada momento que trocamos de calçada quando um negro vem na mesma direção. Ou quando fechamos o vidro do carro para um menino negro e sujo que aparece em busca de um trocado. Atire a primeira pedra quem nunca, mesmo que inconscientemente não tenha feito algo até mesmo pior. E o carnaval, máquina financeira da nosso cultura, só serve para encobrir a imagem suja do racismo e preconceito que existe há anos no nosso País.

O Brasil só ama o preto em época de carnaval. Samba, música cheia de versos que enaltecem o negro. Leva o nome do Brasil a sete mares. Ritmo que ferve o sangue, esquenta, faz suar. O carnaval era a festa do povo. Hoje é uma máfia que rende dinheiro para muitos e momentos de grande alegria para brancos gringos e brancos tupiniquins. Em cima do sangue e dedicação daqueles que ainda amam o samba. O preto trabalha nos barracões o ano inteiro, encontra seus quarenta minutos de brilho na avenida e morre na quarta, em cinzas, e seus sonhos descem a sargeta. E depois que o show acaba o belo mestre-sala é apenas mais um preto vadio.

O Brasil só ama o preto no futebol. 2006 ano da copa. Ano onde o verde e amarelo vai estar estampado na cara pintada do vendedor de camisetas, nas ruas, nas bandeiras. E no coração de cada brasileiro, que mais uma vez se rende aos pés de quatro ou cinco neguinhos. Onde existe a esperança de conquistarmos mais uma estrela, para acompanhar as outras cinco que já temos no peito. Se ganharmos "eita menino de ouro". Se perdemos "culpa daquele preto filho da puta".

O Brasil só ama o preto se esse for uma "preta". Felizmente a escravidão acabou, mas hoje, escravos do dinheiro fazemos coisas que contribui cada vez mais, para denegrir imagem do Brasil fora das nossas terras. Onde para muito somos um País de índios e bundas. E muita bunda. Já passou o tempo em que a mulher brasileira era apenas uma bela melodia de Jobim. E assim mulheres assumem o termo mulata como profissão. E cria-se a imagem da mulher como um simples pedaço de carne ou objeto de desejo. Levando informação distorcida para um bando de estrangeiros que viajam para o Brasil anualmente em busca de turismo sexual.

E fevereiro no Brasil se torna um grande caldeirão de oportunidades. Muita coisa precisa mudar para que realmente o Brasil possa ter a tão falada imagem de País unido e não-racista. A verdade está viva, quatrocentos anos depois. Para mudar temos que parar de se acomodar, e encarar de frente a realidade que ainda somos, infelizmente, um País racista e preconceituoso.
Onde o negro, pobre, não tem a mesma oportunidade ou até a mesma chance, de ser feliz como o brasileiro branco com descendência branca, de estuprador de índia e mulata de senzala.

Tudo irá mudar a partir do momento que criarmos consciência que temos nossos erros, e precisamos lutar muito para que tudo seja diferente. E lutar para criar um País com oportunidades para todo cidadão brasileiro, seja ele preto, branco, índio ou mulato. Criando um País que ame e cuide de suas crianças brancas, pretas e mestiças que moram nas ruas. Criando um País justo e seguro, que seja o nosso maior orgulho. Não porque fazemos samba apenas. Mas porque moramos num lugar onde a nossa batalha nos unificou como seres humanos, independente da cor da nossa pele e da nossa condição financeira.

Quem sabe assim o mês de Fevereiro para nós não passa a ser apenas o símbolo do carnaval. Mas sim, o mês onde descobrimos que o preto tem seu valor. Não porque ele sabe sambar ou porque ele sabe jogar bola. Mas porque ele, como eu, tem os mesmos sonhos, necessidades e vontade de ser feliz.

segunda-feira, janeiro 30, 2006

A riqueza que nós temos ninguém consegue perceber.

Primeiramente eu quero deixar bem claro que eu sempre me orgulhei imensamente de ser brasileira, sentimento que ficou cada vez mais evidente com o passar dos anos fora de casa. Mas infelizmente esse sentimento ás vezes se torna um sentimento de revolta, de vergonha, por atitude de certos brasileiros e isso sem falar nas centenas de cagadas que diariamente os nossos governantes cometem.

Hoje não venho falar de escândalo financeiro, corrupção ou tráfico de drogas. Clichês básicos em matérias de qualquer jornal no nosso País. Infelizmente não bastasse toda a merda que existe na nossa polícia, no nosso governo, ainda vemos cenas de "desamor" humano. Desamor; falta de amor, desprezo, aborrecimento. Essas são as palavras que caracterizam uma pessoa que não ama. O que dizer de uma mãe que joga seu filho que acabou de nascer dentro de um rio em um saco plástico?

Seria desamor e ódio? Ódio; aversão, raiva, rancor profundo, antipatia, repulsão, horror. Palavras que caracterizam um sentimento tão grande de horror, que somente criamos quando alguém nos fez algo que realmente não conseguimos entender ou até mesmo perdoar. Como então usar desses sentimentos para um filho que acabou de nascer?

Para uma criança nascer ela teve que passar por um processo de crescimento que dura em média nove meses. Isso todos nós sabemos. Eu não quero dar exemplos e tenho minhas próprias opiniões referente a esse assunto, mas até que ponto o aborto é errado, para se chegar em uma tentativa de assassinato como essa?

Eu não sou mãe. Já passei pela experiência de engravidar e infelizmente perder a gestação. Durante quase seis meses eu convivi com o sentimento de como que vai ser o meu filho, como será sua voz, qual o nome que devo escolher, será que vai ter a cara da mãe ou do pai. Coisas que devem passar na cabeça de cada mulher desde o momento que descobrem que vão ter um bebê.

Mais difícil que receber o diagnóstico de que infelizmente meu neném não teria muito tempo de vida, foi escolher entre ter que tirar a criança ou esperar que ela viesse a falecer. Sim, essa decisão partiu de mim. Naquele momento eu não conseguia imaginar qual seria a melhor decisão a ser tomada. Nenhuma delas me colocariam meu filho nos meus braços com vida. Resolvi esperar. Não somente porque não tive coragem de decidir de outra maneira, mas também por acreditar em um Deus que escolhe a hora para que tudo aconteça.

Isso tudo passou mas até hoje quase seis anos depois eu ainda fico a imaginar como seria o meu neném, como seria sua voz. As vezes em casa eu fico a imaginar que ali naquele momento teria uma criança de cinco anos correndo para lá e para cá. Fico a pensar como seria minha vida se nada disso tivesse acontecido. Com certeza esse blog não existiria. Esse tempo seria dedicado para a pequena Laura. Mas existem coisas que não nos cabe imaginar ou entender, mas apenas aceitar. O que não nos mata, nos deixa forte.

Por isso que não consigo imaginar sair do hospital com minha filha nos braços, depois de nove meses, depois do trabalho de parto, com os seios cheios de leite, depois de todos os dias de convívio, depois de decorar o quarto em casa, ir direto para um rio, coloca-la em uma sacola de supermercado e joga-la na água?

E inaceitável a atitude de uma pessoa que faça algo assim. Não quero chamar a mulher que deu a luz a essa criança de mãe. Pois mãe é; mulher caridosa e desvelada, fonte de amor, origem, causa. Não uma pessoa que esperou os nove meses, e planejou da saída do hospital assassinar sua criança. E não vou chamar nem de animal. Pois até mesmo os animais na sua falta de conhecimento racional, possuem o instinto materno necessário para cuidar de seus filhotes e livrá-los do mal.

E o que pensar da vida hoje depois de tudo isso? O que pensar do mundo em que vivemos? Onde nem mesmo um recém-nascido, prematuro tem direito de viver. O que esperar de uma atitude de uma pessoa como essa? Isso são características de uma pessoa desapiedada. Que não tem piedade, inexorável, cruel, e desumana. Eu nem sei qual seria a pior forma de castigar essa mulher. Tenho certeza que de certa maneira ela já recebeu o seu castigo, e de modo tão sublime, perene e simples; o neném esta vivo. E durante um bom tempo, quando ela estiver na cadeia, sozinha, com frio, quando o leite do seu seio empedrar e no meio das dores e da febre, tenho certeza que ela irá lembrar-se da filha que ela quase matou. E isso vai doer. Ou não. Mas felizmente "quase" nesse caso não mata ninguém.

Eu não consigo entender. Não quero levantar bandeira do que é certo ou errado, e nem quero julgar a atitude de ninguém. Mas jogar seu filho no lago nunca vai ser o fim dos problemas, mas sim o começo de muitos. Isso é apenas mais um reflexo do mundo cão em que vivemos. A nossa vida não tem valor. Nem as mães amam.

Hoje estou muito decepcionada, não por ser brasileira apenas. Mas por ser bicho-homem racional, e por tudo que hoje temos e sabemos, mas que de nada serve. "E de pensar nisso tudo, eu mulher feita tive medo e não consegui dormir..."

Uma vida ofuscada.

Depois daquele beijo combinaram de se encontrar mais tarde. Eram dez horas da manhã de um caloroso sábado, e os noivos estavam mais que felizes.
Amanda é uma jovem de 26 anos. Anda sempre sorrindo, é comunicativa e muito simpática.
Faz dois meses que terminou o curso de administração de empresa na universidade. Agora aguarda ser efetivada na empresa em que atualmente faz um teste.
O seu noivo Acácio, é um ótimo artista plástico. Homem negro de seus 33 anos, Acácio começou a se dar bem na vida. Além de dar aulas particulares em seu ateliê, é instrutor de arte na secretaria de cultura da cidade do Rio de Janeiro. A sua renda chega a atingir dois mil e duzentos reais por mês, isso quando não vende nem um quadro; coisa rara. É claro que nem sempre foi assim. Isso lhe custou muito esforço. Antes pintava quadros e fazia esculturas, ao mesmo tempo em que era segurança de uma agência bancária. Sempre admirou os trabalhos de Van Gogh, Salvador Dali e Picasso. É um fã incondicional de Waldomiro de Deus, o homem que pintou a imagem de Nossa Senhora Aparecida de mini-saia.
Após ganhar vários concursos de artes plásticas e virar destaque na cidade maravilhosa, Acácio foi contratado pela prefeitura e começou a ser procurado pelos artistas famosos que queriam adquirir as suas obras.
Saiu do anonimato.
Seus quadros surrealistas não mais são vistos nas paredes encardidas dos pequenos escritórios da cidade. Agora as obras de Acácio habitam os hospitais e as faculdades particulares do Brasil e as casas dos gringos no exterior.
Com todo esse sucesso, ele aproveitou para adiantar as coisas que já estavam atrasados em sua vida havia tempos. Comprou um carro, um terreno e começou a construir a casa onde irá morar com a futura esposa.
Neste sábado ele foi na casa da Amanda de manhã e os dois marcaram de sair á noite.
O dia passou sem maiores detalhes.
Depois de haver negociado uma exposição de artes plásticas num grande shopping center, Acácio voltava pra Jacarepaguá. Quando vinha á 70 Km/h e vendo uma blitz policial reduziu para 50. Á 20 metros da blitz, um policial apontou o foco de uma lanterna que tinha em mãos no rosto dele. O mesmo ficou sem visão e perdeu a direção do veículo que foi colidir numa viatura. Acácio bateu a cabeça no volante e desfaleceu.
Vendo que estavam errados, os policiais procuraram achar algo que incriminasse o motorista. Enquanto alguns policiais prestavam socorro, outros revistavam o carro. Um deles disse:
- O cara é negro vê se o carro está no nome dele, talvez é até roubado.
Antes da viatura sair com Acácio em direção ao hospital, um policial remexeu a sua carteira procurando o documento pessoal e do carro. Ele já havia achado os documentos, mas não perdeu a oportunidade de pegar os quatrocentos reais que Acácio tinha na carteira e colocar no bolso.
Meia hora depois chegaram com a vítima no hospital. O médico de plantão foi obrigado a dar eletro-choque no peito dele para trazê-lo de volta a vida.
O artista plástico conseguiu sobreviver. Hoje vive sem pintar, sem trabalhar, sem falar e sem se mover. Ele sobrevive numa cadeira de roda, ouvindo e sempre tentando falar alguma coisa, que seus familiares nunca entendem.
Hoje Amanda parece que economiza o sorriso e a comunicação. Não se vê mais simpatia no rosto desta mulher. Ela continua com o noivo; cuida dele como se fosse a única pessoa que ainda tem no mundo.
Os pais do antigo artista plástico pagaram o concerto da viatura e respondem processo no fórum.
Os policiais torcem até hoje para Acácio não voltar a falar.


*Depois eu comento o autor (muita, muuuuita coisa para se falar)