On this side of the Universe.

terça-feira, março 07, 2006

Lutar contra o Hades de cada dia.

No dia 8 de marco de 1857 cento e trinta mulheres fizeram historia. Como forma de reivindicar melhores condições de trabalho, diminuição da jornada (que na época era de 16 horas) e salários iguais ao dos homens (pois naquele tempo as mulheres ganhavam cerca de um terço do salário pago aos homens). Essa manifestação foi encerrada de forma brutal e violenta, como forma de repreender e ensinar as funcionárias, elas foram trancadas dentro da fábrica que logo em seguida foi incendiada.

A criação da data só foi oficializada pela Organização das Nações Unidas (ONU) muitos anos depois e não serve apenas como uma data para se relembrar tal acontecimento. Na maioria dos países, o dia da mulher é marcado por debates, conferências, discussões sobre o que mudou desde a morte brutal das cento e trinta funcionárias e o papel da mulher na sociedade atual.

Qual seria realmente o principal papel da data? Tentar diminuir o preconceito que existe referente a mulher? Tentar colocar a mulher no mesmo patamar profissional de um homem? Ou é apenas mais uma data para dar um beijo e uma rosa para a mamãe?

Muita coisa mudou desde 1857, hoje é visível a participação de mulheres nas decisões e atitudes políticas de diversos países. Incluindo países como o Paquistão, onde mulheres dia após dia estão conseguindo conquistar seus direitos. Hoje existe uma participação muito maior de mulheres que ocupam cargos no legislativo e executivo. Coisa que no Brasil só aconteceu a partir de 1932.

Hoje as mulheres estão cada vez mais interessadas em crescerem como profissionais. Hoje já existe a imagem da mulher como uma competidora de mercado de trabalho com o homem, e não somente a esposa que fica em casa cuidando de filhos. Muito pelo contrário, cresce cada vez mais o numero de mulheres que estão dando prioridade aos planos educacionais e profissionais do que aos planos do vestido branco. Um mal que cresce na sociedade? Depende do ponto de vista de cada um.

Mulher hoje é sinônimo de independência e excelente profissionalismo. Esta provado que a mulher é mais dedicada e eficiente em tudo o que faz. Para a mulher existe muito mais que a necessidade de sempre fazer um bom trabalho, mas existe também o lado emocional pelo qual a mulher sempre irá se dedicar muito mais que o homem em tudo o que faz.

Sim, muita coisa mudou. Mas ainda existe um longo caminho para que os direitos da mulher sejam visto e respeitado com tal merecimento. Mesmo com muita coisa feita, milhares de mulheres no mundo são vitimas de trabalho escravo, violência sexual fora e dentro de casa, abuso de autoridade, desvantagens na carreira profissional. Vivemos num mundo cheio de hipocrisia, indiferença, mentira e desigualdades gloriosas. Onde a desvalorização da imagem da mulher é apenas a ponta do iceberg num mundo onde homens pagam cinco reais para sair com meninas de oito anos de idade no norte do Brasil.

Comemorar? Comemorar o que quando a esperança esta dispersa? A ONU, mesma organização que criou a data, que celebra pelos quatro cantos do planeta a paz e igualdade perante mulheres e homens, está longe de ser o exemplo que tanto se cobra entre os seres humanos.

Mulheres morrem diariamente devido a brutalidade masculina, mulheres passam fome diariamente devido as injustiças de um comércio capitalista, mulheres perdem seus sonhos diariamente quando a realidade é maldade, mulheres choram diariamente ao ver o filho que chora por não ter o que comer, mulheres crescem nas ruas da cidade paulistana diariamente e o dia oito de Março para elas será apenas mais um dia feito para sobreviver e não para comemorar.

Quando que o futuro recomeça? Quando temos o inicio de uma data como essa que foi construída em cima da morte de muitas, ou quando descobrimos que pouco mudou mesmo com tanto sangue derramado?

Eu como mulher comemoro a data não por ser mulher, mas pela sorte de ser brasileira. De ser brasileira e nascer numa época onde minha boca não possui trava nem cadeado. Eu como mulher tenho a sorte de falar o que quero, pensar o que bem entender, amar quem eu quiser, correr pelas ruas da cidade, cantar o hino nacional e ver a lágrima verdadeira, chorar o nascimento do meu filho, não querer ter o meu filho, ajoelhar e adorar o Deus que eu quiser, usar calça jeans e camiseta, dividir um banco de ônibus com uma pessoa que eu não conheço, freqüentar a escola com os meninos, sair de casa se eu quiser depois dos dezoito anos, comemorar a minha tão amada liberdade, votar em quem eu bem entender. Sim, eu posso fazer tudo isso e muito mais. Mas não porque sou mulher e tenho meus direitos, mas porque felizmente eu tive a sorte de nascer em um lugar que me dá o direito de ser o que sou. Mesmo que de forma errada, mesmo que de forma injusta. Eu, ainda posso comemorar.

E as mulheres que não possuem a mesma sorte que eu? Seria justo então essa data ser válida tanto para umas e quase nada para outras? Isso para mim já e o suficiente para provar que a data sempre será lembrada não pelo romantismo da beleza da mulher, mas sim pelas lágrimas que foram derramadas para que hoje existisse o dia oito de março.

Vamos comemorar com velório, velas e caixão, pela morte de milhões de mulheres que morrerão em busca de um mundo melhor, pelas mulheres que sustentam o nosso pequeno universo, pelas meninas que limpam as nossas casas, pelas garotas que oferecem amor gratuito para acabar com a solidão, pela imagem da mulher brasileira que gera um comércio sexual com quadrilhas organizadas abusando de Persephones em todo o País.

Com essas e outras, feliz dia das mulheres para aquelas que lutam contra a maldade e desilusão. Para aquelas que ainda acreditam existir motivos (apesar de tanta dor) para se comemorar. Mesmo que seja pelo direito que ainda temos de respirar. Ainda...

Rotina

Todo dia de manhã eu acordo cedo.
A cama sussurra para mim ficar, mas o bolso grita mais alto e me faz levantar.
Saio de casa e vou trabalhar numa lanchonete.
A lanchonete deveria se chamar Torre de Babel,
Pois lá trabalhamos em cinco, e cada um de um lugar diferente.

Eu...


Julian (meu chefe)...


Lindsay (a gerente)...


Eddie (o ajudante de cozinheiro)...


John (o cozinheiro)


Culturas diferentes, inglês com sotaque difícil de entender. Cinco pessoas que vieram de lugares distantes para se encontrar em uma cozinha de restaurante, e assim contar histórias, aprender e ensinar algo de novo. Por essas e outras a cozinha sempre foi o meu lugar favorito de uma casa. A comida como o amor, sempre fala a alma...